FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog
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NADA MAIS IMPORTA

Naquela manhã, Juliana, diverso do habitual, deixou os lençóis mais tarde.
Uma certa indisposição a abatia.
Sentia os olhos pesados, o corpo doía.
Não compreendia seu estado, vez que na noite anterior pôs-se a repousar em 
bom horário e bem disposta.
Vagou pela casa sem disposição para nada,
nem mesmo para encontrar as amigas no clube,
reunião de todos os sábados.
Prostrou-se no sofá, com uma xícara de café puro,  
e quedou-se a lembrar dos seus,
não sem antes colocar aquela música belíssima e triste da qual gostava,
não só pela harmonia, mas também pela letra, e o lindo arranjo: "cello" e dois violinos.
Naquele momento a casa inundou-se de um aroma amadeirado tornando Juliana, já perdida
em seus pensamentos, inebriada, inerte.
Viajou à própria infância, lembrando de tempos de alegria e de tristeza, brincadeiras 
de esconder naquele jardim imenso que adornava a casa de seus pais, bem ainda a
trágica perda destes, que a fez abandonar Vila das Flores, sem rumo, sem destino, 
sem nem mesmo despedir-se daqueles que ficaram.
Na Capital Juliana construiu vida nova, sem jamais revelar aos amigos sua origem,
seu passado ou mesmo o que teria trazido para este lugar.
Sentia saudades de seus irmãos e sobrinhos, mas entendia por bem manter-se como tinha feito até então, o que evitaria mais sofrimentos, ao menos para sua família, pois para si tal seria inevitável por toda a vida.
Mesmo sem conseguir recordar-se por completo daquela noite, Juliana sabia que carregaria consigo por toda a vida a culpa pelas mortes dos próprios pais,
sentimento que a impedia de viver plenamente.
Nem mesmo amar permitia-se.
Após grandes divagações voltou a si e viu que a música já não mais tocava,
o café há muito havia esfriado e nada mais havia mudado, 
a não ser que havia um envelope salmão sob a porta da sala, 
para a qual moveu-se lentamente e pôs-se a observar o invólucro,
onde seu nome fora escrito de próprio punho,
com letra familiar.
Tremeu e temeu ver o verso...
Notou tratar-se de uma carta, a qual delicadamente colocou sobre a mesa de centro e passou
a observar, de forma intuitiva, buscando o autor e conteúdo, certo que lhe faltava a coragem 
para tanto...

FERNANDA HANNA 17.4.04