FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog
O PALHAÇO

E quando me dei conta não havia mais luzes,
todos já haviam se retirado, e eu ali divagando...
Antes não era assim...
Não.
Foram momentos imensuráveis, vou contar.
Feche os olhos e me ouça...
Era animado.
Era possível ver a alegria naqueles muitos olhinhos infantis.
Dobrada a lona, tomavam seus lugares,
ávidos pelo que estava por vir.
Era a fase mais gostosa do espetáculo.
Rufavam os tammbores, as cortinas se abriam,
e nós entrávamos lentamente, com nossas fantasias,
maquiagens e cada qual com seu
narigão, bem vermelho.
Logo o palhaço Corujinha acenava e dizia:
-boa noite minhas crianças lindas!
Nós sentíamos a recepção calorosa de toda a platéia,
que, exaltada, nos aplaudia sem parar.
E então mais rubros que nossos narigões,
de vergonha, claro, muito felizes iniciávamos nosso espetáculo.
E lá iam peraltices e molecagens.
Muitas.
Brincávamos entre nós e também com a platéia.
Eu me divertia quando tomava os pirulitos dos outros palhaços
e dava para as crianças.
Elas riam.
As crianças gostavam de participar.
Há quem diga que o palhaço é para elas um mito querido,
que as acompanha, se não por toda a vida, por boa parte dela.
Por isso tantos passam as adversidades sorrindo.
Eu acredito nisto.
Não por ser palhaço, mas porque, antes disto, fui criança.
Quando a essência é a alegria,
a vida é rica em sabedoria,
temperança e paz.
Foi ali naquele picadeiro que eu,
o palhaço Corujinha, e os outros,
fizemos o que hoje para nós é saudade,
diferença em muitos coraçõezinhos.
Eu fui palhaço a vida inteira e só trabalhei a alegria...
E a realidade agora é que de de tanto ser palhaço,
me sinto um palhaço diante da vida,
pois a um palhaço sem circo,
apagaram-se as luzes, o picadeiro está escuro,
não há mais platéia e o espetáculo acabou.                        

                                                                   

Máscaras

Na verdade eu não te falo das minhas tristezas.
É certo que te conto dos dias dos outros...
Daqueles que não sabem que discorro sobre eles.
Eu sempre te conto da dor, da ferida e da alegria
do meu semelhante...
E tu não vês.
Olho no espelho e me descubro personas outras, que não esta que vês.
Mas tu não vês.
Percebo a facilidade que há em viver assim, e assim me debulhar para ti, não eu, mas outros
já que sou a realidade de um sonho perfeito.
Será?
Ser cada dia uma outra máscara me faz forte e real.
E tu não vês.
Vejo até uma certa precisão em não precisar
Encontrar-me nos reflexos todos os dias.
Vês?
Frente-a-frente comigo não seria possível,
pois não sou a persona que uma das minhas personas admira
em outra, aquela que não gostaria de ser
a persona que fala a ti.
E tu ... não vês...


F.H. 26.5.04

LEMBRANÇAS DE PEÃO

E lá no alto da serra desponta o sol.
Brilha, prateando raio a raio.
Reflete feito espelho nas límpidas e
correntes águas do ribeirão.

Hoje é assim, ontem também foi.
Desde sempre foi.
Agora homem feito, de gibão aposentado,
sinto saudade daqueles tempos.

Quantas vezes fugi da cama de palha, de pijamas,
só pa ouvir a peonada reunida no galpão, 
contando casos entremeados às lindas modas de viola,
em volta da fogueira.

Mas o tempo não perdoou, passou mesmo.
O alazão ficou pequeno frente ao pasto d'antes,
E partiu pra descansar.
Do gado, antes de leite ou de corte,
restaram duas ou três cabeças.
Pra mostrar pra garotada da cidade,
que vem nas férias pro "turismo rural".

Hoje não há mais peonada, gado pra apartar, roda de casos
e moda de viola, a não ser nas lembranças deste velho peão,
ao qual só sobrou a viola na parede
que virou enfeite e este o chão pra caminhar.

E lembrar...
E chorar...
E a fogueira se apagou.

F.H.  22.5.04

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VAMOS VIVER

Sem chão...
É assim que me sinto, cada vez que
na busca de um beijo teu,
encontro-te de malas feitas, a partir.
Outra vez sem rumo, outra vez sem explicações.
Outra vez sem que tudo que deixas tenha algum valor.
Fica...
Tudo fica.
Tudo que já não te serve.
A casa que erguemos e construimos.
A mulher que se deita contigo, e que sem piedade tu rejeitas.
Os filhos que juntos fizemos.
Os próximos.
Sofre em silêncio também o cão, em sua casinha lá no fundo do quintal.
Você nunca percebeu, mas ele também te tinha como pai,
e agora sente a dor de um filho abandonado.
E lá vai o tempo.
E lá vai a vida.
E a quem fica, resta caminhar, mesmo sem entender,
mesmo sem conseguir conter a dor,
impedir as lágrimas.
Nos resta viver.

F.H. 21.5.04

O SENTIDO DA VIDA

Cá debaixo nos trilhos da morosa
eu já vejo lá ao longe a velha cabana.
Deixei meu chão em busca de compreender
onde vai a vida.
Levei comigo sonhos de que ela iria para bem longe.
Ao longo dos anos percebi que a vida
vai onde se encontra a paz,
e que por onde andei não encontrei.
Me deparei por anos com a saudade
do tempo...
Do tempo de viver, bem viver.
Das cavalgadas, banhos em cachoeiras e no ribeirão.
Ah! o ribeirão... as águas frias mais limpidas daquela serra.
A saudade me mostrou o caminho de volta.
Meu coração de tão pequeno já
não sabe o que vai reencontrar ou se há como recomeçar.
Carregando minha guaiaca e malas
tomo o rumo de casa, passo a passo na velha estradinha de cascalhos.
Lá longe o sol se põe brilhando no ribeirão.
Ribeirão dos grandes banhos, pescarias, brincadeiras.
A cabana, alçando-a vejo que está como deixei,
perdida no verde da montanha, cercada de flores coloridas,
e a fumaça que sobe da chaminé.
O vento traz aquele velho aroma do café,
e junto com ele as lembranças me tomam o pensamento,
as malas quedam ao chão.
Neste instante eu percebo que minha busca sem sentido só me levou ao perigo,
que o homem é feliz em seu meio, e, ali onde nasci e me criei,
entre os meus, está o sentido da vida: o calor, a paz, a alegria e o amor.

F.H. 18.5.2004

 

VAGÃO QUE ME TRAZ DE VOLTA

Do alto do vagão vejo
as serras verdes, as pequenas florestas bonitas.

Das árvores de eucaliptos sinto o aroma inconfundível.
A marcha da locomotiva me faz ver que reconheço cada pedaço desse chão.
É o retorno, é a volta, é tudo outra vez.

É o passado, que antes tão bem guardado, agora vem à tona.
Quando deixei essa terra fui pro mundo, ganhei diploma, vivi muitos amores e agora estou de volta.
Quanto tempo deixei este canto do mundo,
que outrora tanto chamei de terra querida.
Anos e anos sem ver a cor dos olhos de minha mãe, com quem quero ter,
olhos dos quais num abraço tento reter as lágrimas.
Dói saber que mesmo distante causei dor, deixei lembranças.
Eu que vivi a fuga exatamente pela certeza do diverso, que não faria falta.
Reconheço que fui longe, voei como as grandes aves, vi as altas montanhas.
Muitas cartas não escrevi, telefonemas não dei.
E hoje volto e encontro tudo como deixei.
Os brinquedos da infância, um tanto empoeirados, ainda sobre a velha
cômoda ali no quarto, a cama de imbuia envelhecida pelo tempo, mas ainda firme, coberta com lençóis limpos, na certeza de que eu um dia estaria de volta. 
Tudo esperando, sobretudo minha mãe me esperando.
Só não sei se há tempo para refazer a vida não vivida, o tempo perdido,
para tornar distante a saudade e a dor, ora tão latentes;
esquecer a lacuna de sentimentos, porque 
sem amor materno, o diploma de nada me vale;
e trazer de volta o tempo em que eu era criança, feliz...

F.H. 18.5.2004

Obs.: Gostaria de esclarecer que os textos aqui presentes, todos de minha autoria, não seguem um padrão de formatação de poema, poesia, & afins pois não o são. Trato-os como textos puros, livres da forma.

 

ANDO SÓ

E outra vez, e outra,
e outra, estamos nós aqui,

eu, você, a parede azul e a frieza das pedras.

As plantas que adornam o ambiente ainda são as mesmas,

talvez nem o pólen tenham exalado.

Os móveis continuam cada qual no seu canto.

As fotos, um tanto amareladas, contam

histórias que vivemos juntas,

e houve pequenos momentos de alegria,

sem que eu soubesse que você estava lá...

E eu sei que muitas vezes voltarei aqui e

perguntarei até quando?

Até quando e onde você estará comigo?

Por muito, distraída, me encontro a pensar onde está tudo isto

no triângulo que deixa a realidade, passa pelo sonho e deságua no pesadelo?

Minhas emoções sempre foram frágeis eu sei,

e, na tua ausência, a despeito da frieza nos atos,

minhas caminhadas sempre foram longas,

e meus caminhos sempre foram retos,
 
porque você não estava  lá para provocar-me o contrário.

É sempre ao seu lado que vou de uma ponta a outra desta vida, andando ora rápido,

ora a passos tranqüilos, buscando... buscando encontrar-me como de outrora.

Vivo como os seres da noite, na expectativa de que tu partas,

a seguir o teu caminho, libertando-me ... de ti...ou...

Pois sei que só a tua ausência me consentirá enxergar

quem eu sou e o que eu posso ser andando só,

e porque essa tristeza que por si só tanto me açoita,

me condenando eternamente ao flagelo da solidão.

F.H. 17.5.04

Até quando? by Fernanda Hanna - Fragmentos

Até quando?

Quem é que expõe seus irmãos ao ridículo,
mostrando-os desnudos, 
em poses patéticas e humilhantes ao mundo?
Quem é, que em nome da paz,
corre o mundo alçando riquezas alheias, 
e, para tanto, causando morte em massa?
De onde vem, quem
por motivos torpes, banais, 
mata filhos, irmãos e pais? 
Por que, na corrida a um estádio de
futebol, espanca-se o oponente até a morte,
usando toda sorte de petrechos encontrados pelo caminho?
Até quando e quantas mais versões
de Auschwitz-Birkenau, Abu Ghraib?
E as ditaduras que pairaram até final dos anos 70
em países da América Latina e do Sul, inclusive
por aqui, deixando lembranças e
repassando práticas, não raro,
sempre vistas em reportagens de televisão, jornais.
Onde será o próximo campo de concentração ou 
prisão a trazer vergonha ao mundo?
Qual será o próximo país invadido e destruído?
Até quando e quanto mais violência e humilhação 
recairá sobre os olhos do mundo?
Bombas que dizimam vidas, 
erradicam sonhos, dissipam projetos.
E sempre, desde os mais remotos tempos, foi assim.
Quem é o autor de tanta "proeza",
será ele capaz de amar, trocar, 
relacionar-se com seu próximo,
sem interesse qualquer, que não doar-se ?
Tratamos de uma lenda viva, o Homem.

Visitas

Quero agradecer todas as visitas, especialmente da Néco, que é muito doce,
em breve colocarei novos textos aqui.
Beijos.