FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog

Campo de estrelas

Eu vivia a minha vida de forma tranqüila, num jardim.
Voava sobre ele o tempo todo, junto com outros anjos.
Nos deliciávamos com o aroma das flores e a beleza das palavras.
As palavras dos poemas. 
Sim havia lindos poemas.
Batíamos nossas asas e esbanjávamos alegria,
e as imagens eram lindas, especialmente se estivéssemos diante do sol.
Nossas asas brilhavam numa cor ouro, imponente, bela.
Aquele canto alado era o nosso canto e também o nosso recanto.
Lá sempre havia luz e brilho.
Jamais víamos qualquer coisa que fosse, mesmo que um pássaro, no escuro.
Ah! E as festas...
Tão gostosas, riamos e brincávamos.
Conversávamos todos os dias, o dia todo, quando possível.
Sempre declamávamos nossos poemas.
Duas vezes ao mês festejávamos, 
havia muita alegria, pintávamos nosso lar,
deixávamos mensagens na entrada, 
a fim de orientar aqueles que quisessem juntar-se a nós.
E sempre havia uma foto na porta para que aquele que ali passasse entendesse que se tratava de casa de anjos.
E assim foi durante muito tempo.
E sempre mais e mais anjos juntavam-se a nós,
outros nos deixavam, para voar n'outros céus.
Até que um dia pairou no nosso céu um ar de odor fétido,
de cor escura, muito escura.
Nossos olhos tornaram-se nebulosos.
Não víamos mais um ao outro.
Nem mesmo aquilo que verdadeiramente havia de bom e belo em nós.
Somente nossos defeitos estavam latentes.
A escuridão que nos cegou e estabeleceu a discórdia.
E demorou tempo a passar.
Tempo demais.
E nesse tempo pudemos perceber que, a despeito das nossas diferenças,
ainda precisávamos desenvolver com mais retidão um sentimento maior.
Que, se em outras vezes estivéssemos no escuro, nos manteria em harmonia.
O amor.
Descobrimos também que se assim agirmos, o campo de estrelas novamente estará repleto de seres alados e poetas, cujas asas brilharão ao voar contra o sol.

F.H. 23.6.04

Espelhos

Eu sabia que nesta linda noite de outono escreveria um texto,
alguns parágrafos, quiçá um poema...
Era certo que as flores que esmoreceram, tempos antes,
não seriam mais do que pretexto para a vida em uma nova estação.
Arrefeceu o ar e a cidade ficou vazia, e todos se foram por causa do
amor.
Por causa do amor que entre nós se criou.
Por causa do amor e da flor e também por causa da flor
e do amor, que senti por você.
Porque o intenso causa estranheza e espanto,
Levando quem quer que seja da labuta à luta.
E de tanta estranheza e espanto, espanta até quem vê e se encanta.
Eu sabia que ao lhe ver encantar-me-ia,
sua história unir-se-ia à minha e o meu coração levaria de mim, para
você.
E só para você.
Para sempre...
Por isso esperei, divaguei, e vaguei, e fugi nos poemas e poesias
sutis.
Eu só não sabia que para sempre, depois de um beijo, e de outro,
e outro, para sempre do gosto eu saberia.
E amar-te e encantar-me-ia.
Contudo existiam reflexos e existiam espelhos.
E eles estavam lá.
Porque os espelhos são reflexos daquilo que sempre almejamos,
mas que jamais encontramos porque, quando diante deles,
enxergamos
diverso do percebido, somente nossa própria e ofuscada imagem,
que nos vem a furtar a verdade de nós mesmos.
E aí nos escondemos, por temer.
Temer o fim.
Enfim, eu sabia que faria um poema tão logo notei que,
até que se prove em contrário, não há aquele que saiba qual
é o gosto que tem o beijo do rosto refletido no espelho do outro lado
da tela.
E o esqueça...

SP 13.6.2004 - Fernanda Hanna

DESTINO: ONDE QUISERMOS

Num domingo de manhã, viajando pela Paulista, patrimônio que o paulistano que vive nela e
cercanias cultua e tem ciúme, vejo quão diversa e múltipla é a cultura espalhada ao longo daquela.
Vejamos.
Existem estrangeiros de origem latina vendendo seus artesanatos, artesãos daqui e de cidades contíguas.
Um dia encontrei um senhor na esquina com a Pamplona, vendendo tapetes de couro bovino.
No início da conversa disse que era de Barretos, por causa da fama da cidade, pela Festa do Peão.
Enfim para valorizar o produto.
Decorrida a conversa, não comprei o tapete, a despeito de lindo, mas soube que ele vinha de Bebedouro, terra da laranja.
E laranja não pilota boi bravo.
Andando mais um pouco, tomei uma água de côco e ajudei o "Paraíba" nome que ele mesmo se
atribuiu, a falar R$ 1,50, em inglês, para um estrangeiro, já que o Paraiba, me disse que só sabia falar "...paraibês mesmo...".
Ainda bem que naquele momento estava eu ali, com meu inglês ponta-firme.
 Risos.
Seguindo para a Consolação, na esquina do Banco Real, depois da Alameda das Flores, atravessando
para o lado esquerdo, ao lado do Trianon, tem um bar-lanchonete cujo banheiro é esquisito, todo em aço, sujo e sem janela, apertadérrimo.
A comida é legalzinha e o serviço bom.
As meninas são prestativas e educadas.
É bom sentar ali e observar quem passa.
Já vi gravação de comercial e até artista de tv.
À direita do bar espalham-se uma "comunidade hippie" e seus artesanatos, que sempre paro
para olhar, porque gosto, mas a Mara diz que é porque eu não posso ver um "homem sujo".
Não sei se ela fala isso porque geralmente eles têm aqueles bolos rastafari na cabeça, mas
toda vez que eu ouço isso, tenho a sensação de ser uma porca.
Continuando o passeio...
À esquerda do buteco está o Trianon, lindo, imponente, cheio de belas árvores e esculturas.
Vale à pena tirar um tempo e caminhar por ele, se possível munido de uma máquina fotográfica.
À sua frente há uma feira de artesanato e do outro lado da avenida, embaixo do MASP, uma feira
de antiguidades, ambas permanentes nestes locais neste dia da semana.
Dali em diante, seguindo o caminho, será possível encontrar artistas plásticos e artesãos que trabalham com vários tipos de técnicas e produtos.
Gosto muito quando vejo o pessoal que mexe com camisetas coloridas, as telas de um artista que cultua reproduzir índios e também o artesão que reproduz com extrema perfeição bustos
ou mesmo corpos inteiros de personagens de cinema, desenho animado.
Uma vez eu vi um busto do protagonista do filme "O corvo" perfeito.
Lembro dele até hoje, inclusive que não tinha grana para comprá-lo.
Porque é um filme que talvez para muitos diga nada, mas para mim fez uma certa diferença.
Opa, não posso esquecer dos vendedores de livros novos e usados, vinil e toda a sorte  de
produtos que possa a mente humana imaginar, a mão humana produzir e olho humano gostar.
Numa viagem mais reservada, no perímetro do meu cafofo, especificamente dentro do meu quarto
ou na sala, leio, estudo, toco violão, ouço músicas, uso o micro, interajo com a Mara que
vive no quarto em frente, e com as nossas cachorras, vez ou outra falo ao telefone.
E pela capacidade de ser, viver e absorver todo o acima narrado, ouso publicar.

O planeta das trevas
Quando Deus criou o mundo havia luz:
o sol, que nos esquentava ao longo do dia,
e a lua: que cuidava do caminho pelos quais passávamos pelas noites afora.
A terra era o planeta mais belo do universo, emanava vida.
Fazíamos inveja aos demais planetas.
O equilíbrio, fruto da criação, nos permitia viver em condições ideais.
Nós, os humanos, os animais e o paraíso, que ia da mais delicada flor às grandes florestas,
como a Amazônia.
Tudo que o Criador fez foi amparado na perfeição, com o intuito de que assim se perpetuasse.
E assim éramos nós, viventes sobre a terra.
Tínhamos à nossa volta, mansas leoas, panteras,
o gado que nos trazia o leite,  entre outros animais da fauna.
Os rios eram fartos de peixes e a natureza  nos presenteava dia-a-dia com água límpida
e as mais diversas iguarias.
A fim de alegrar nossos espíritos, olhávamos para o alto e víamos as mais belas revoadas.
Pássaros das mais variadas espécies faziam parte do paraíso em que vivíamos, desenhavam lindas paisagens nos céus.
E cada vez mais nós tínhamos certeza do acerto do Criador quanto ao local  que nos deu para viver e bem mais quanto aos nossos irmãos, os animais, e nossas companheiras, as espécies que compunham a flora.
O tempo passou e nós perpetuamos nossa espécie, como era previsto, mas já não com tanta sabedoria quanto o Criador.
Deslumbrados, nós e nossos filhos, com tudo que nos foi dado, não nos apercebemos que o
nosso poder de destruição, maior que o poder de renovação do meio-ambiente,
foi matando insensatamente o lugar onde vivíamos, nossos irmãos, as plantas e nossa fonte de alimentação.
Hoje não há mais água.
O sol e a lua se foram, quem sabe, talvez iluminar outros seres providos de inteligência.
E nós...
Nós, escravos de nossa própria inconseqüência, rastejamos em nossos próprios excrementos, tateando sob as trevas que nós mesmos criamos.