FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog

O povo da serra

Sobre as pedras pálidas correm as escassas águas do velho riacho.
Vem lá de cima e a vida daquela gente ilumina, e água.
No pé do morro erguem-se os barracos de papel.
Claro, porque a gente dali brinca de carrossel, sonha de avião, come
quando dá e vive de ilusão.
Amargura, tristeza e solidão não são luxos de quem vive
em mansão.
O povo da beira da serra vive do que cata e cata mais quando
encontra e as "madame" lá do centro os agracia com doação.
Alegria se faz quando o Zé do açougue ganha do patrão
uns "resto" lá de lingüiça de leitão e traz pra toda gente dele
"assá"
E lá é um bom lugar.
E assim cada vez que alguém desce ou sobe a Serra do Mar,
se bem a admirar, vai notar que em breve,
logo mais, não a verá.
Aquela gente que ali está,
está porque não tem onde estar.
Não pode mais estar onde já esteve.
Não se sabe bem, se foi a ressaca ou a onda do mar,
mas a pressão foi tanta que o que lhes restou foi
suas famílias dali retirar,
e sempre quando é assim, na serra vão parar.
Tiram-nos tanto da boca todo dia,
que está perto de chegar o dia em que também
seremos o povo da Serra do Mar.
Depois, só não sei, de quem vão tirar.

F.H. 18.07.2004

A música parou

Nas paredes os quadros silentes já não contam mais as velhas estórias.
Os olhos cerrados, o céu de um azul mais que azul, e os segredos na serra.
Lá no alto, onde
Tom, é um tom, sempre em tom de moderação.
Menina, menina, bela menina, diamantes na esquina.
Enfeita a mão da madame pura resina.
N'outro dia de sol, sol de setembro, primavera vem sorrindo,
Trazendo flores, enfeitando passos de bailarina.
Todos sobre um palco de parafina.
O olhar no espelho, as curvas na face refletem o tempo que se foi.
Amores escritos em frases distantes.
Vidas baseadas em acordes errantes.
Ouço ao longe solos revestidos de harmonias fulgurantes.
Os olhos se abriram e os bons bordões se foram.
De um lado os violões, de outro as partituras, acima do olhar a certeza
de que eles já não se encontram.
A areia da ampulheta o vento levou.
Gritos ardentes no silêncio.
O tempo passou, passou!
E a música parou...

Jardim de inverno

Deitou e não conseguiu dormir.
No pouco que variou, saiu triste por um sonho.
Leva a vida.
Leva a vida.
Estrada afora, ela te pesa, mais do que devia.
Muito mais do que devia.
Horas a pé e você desperta.
A estrada é longa,
a viagem de antes se perdeu pelo caminho.
Sonho de liberdade, verdade, existe!
Jardim das flores que eu cultivei!
Lágrimas de inverno que eu deixei!
Leva a vida.
Leva a vida.
Estrada afora porque o tempo é agora.
Porque as lágrimas caíram em algum jardim de inverno.
Mas ninguém percebeu que o sonho é eterno.

 

Vida de poeta

O poeta é um louco em plena sanidade.
 
É existência pura.
Dá de si à poesia tudo de puro que tem e que pode.
Compromete-se por inteiro, por toda a vida, com o ato de "poetar". 
Nasce poeta.
Vive e morre poeta.
É a regra.
E nessa trilha, no abismo em frente ao mar, esquece de si em detrimento dos outros.
Porque estes últimos precisam da intensidade de seus poemas, da apreensão de seus contos e tudo o mais que o poeta lhes puder prover para se alimentar, aliviar e melhor viver.
Mas quem poeta ao poeta para também lhe aliviar?
Outro poeta?
Não!
Não vale e não pode!
Pois é ato de poeta, e de poeta para poeta em nada resulta. 
O poeta é um "kamikaze" cujas armas são a pena e a tinta, cujo caminho é consigo, que a tudo se permite na lida. 
E se contar com sorte, haverá quem o leia até a morte e a outros reporte, mesmo sem sentir que o faz, sua vida intensa de quase-morte, de um ser que de tão existencial se torna genial.
Aos olhos dos outros...
Mas por dentro sangra as inquietações da vida de alguém que sofre, chora e sente, mas por amor a arte não se rende.

 

LEGADO DIGITAL

Somos filhos da era da revolução virtual.
Poetas da internet que aos olhos do mundo entregam a poesia digital.
Oriundos dos torrões de carvão, da penas, e tinteiras,
registramos nossos sentimentos, não raro pessoais,
em folhas de papéis digitais.
Trabalhamos todos os visuais.
E lá estamos nós: Idéias, concepções, sonhos e atos, e sonhos de fato.
Formais e informais, é fato.
Somos o verbo e o ditado original.
Cunhados na franqueza, cantamos da beleza da lua às curvas da mulher nua.
Sem medo e sem culpa,  tudo que registramos e cantamos,
e cantamos e registramos e para o mundo deixamos,
ópera, canto e texto digital,
tudo ali, naquela tela é nosso legado virtual.

F.H. 25.6.04

Obs.: Dedicado a todos bons blogueiros e poetas virtuais deste Brasilzão.