FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog

Talvez

 

Talvez eu seja a capacidade ousada de pura compreensão.

O momento errado de avaliação.

A saudade destemperada e temporã.

A curva que não há no meio do mar, mas que lá deveria estar.

A vitória que ainda não veio.

O filho do meio.

A tentativa de um poema ideal.

Talvez eu devesse ter sido em meio aos dias frios e chuvosos, a saudade do sol que viria acalentar meus momentos mais duros.

Eu, em minhas mais sublimes e singelas aspirações.

Outra pessoa quando percebi que te amava e também quando me faltou ambição.

Talvez eu devesse ter tido a certeza que o sol nasceria no dia seguinte.

Mas não me faltou a coragem para enfrentar as dificuldades e não me ocultar.

A sabedoria para saber esperar o sol se por outra vez sobre o mar.

É certo que eu deveria ter vivido mais.

E não o fiz.

Eu não sei onde estava quando não escrevi em prosa e verso a nossa canção.

Não era frio, nem mesmo tempo de solidão.

Apenas me sentia só porque você não estava lá.

Mas sei que mantive meus conceitos e convicções.

E tudo que acordei contigo.

Mesmo quando de mim se esperaram as piores atitudes, sobrevivi de pé.

Na certeza de que não me trairá o coração, certamente porque aquele se abstém à quando tal convém à razão.

Não me trairão meus preceitos e hei de estar onde sempre me posicionei porque, a despeito de acusações infundadas dos piores atos, sou maior do que os meus limites indicam e não me sujeito aos meus defeitos.

 

Fernanda Hanna. 30.11.2004 

O MEU LEGADO

 

Um dia eu não estarei mais aqui.

Perderei o domínio sobre as palavras que ora preenchem este caderno.

Quer permanecerão e hão de delinear conceitos, sem pretensão, só denotando do mundo, da vida e do Homem a minha visão.

Fernanda Hanna 26.11.2004

O silêncio destrói.

A distância machuca.

Sua ausência me consome.

Porém, de todos, o primeiro é o pior.

Sem

Hoje estou sem:

- brilho no olhar;

- esperança;

- expectativa;

- sorrir;

- vontade de comer;

- vontade de nada.

Me sinto cansada e derrotada.

 

Para quem contar?

E assim se fez a canção.
Para ser ouvida por quem se dispõe a aguardá-la em silêncio, tom-a-tom.
A despeito de não ser possível ser sempre assim.
Porque em meio ao escaldante tombo de um copo cheio há quem não consiga esperar que se derrame a última gota.
De sangue.
Sem limpar.
Porque escolha envolve espera.
Esperar se conjuga agora abnegar (-se!).
Eu quis, mas não pude ser, nem ter esta canção, nem mesmo nota ou quem me ouvisse as palavras sem perder de vista a paixão.
Porque entre o fogo e a luz há vestígios de divergência.
Verdade, sobre esta última existe o véu do afago, ora disfarçado de compaixão.
De início anilado por aquele.
Outrora, atos tresloucados sem razão.
De ser.
Não sei ser "dó".
Anseio pelo "lá".
Estar.
Não sou nota, nem canto esta canção e, se em via pública, não me abstenho de tentar a contramão.
Pois as possibilidades por vezes negam as origens.
Certo é que se vai.
Desta feita, em um caminho destituído de indícios que dão conta da volta.

Fernanda Hanna
São Paulo, 24.11.2004

O dia 23...

E então chegou o dia...

Sabido, indesejado, feliz e triste.

Feliz porque há você.

E triste porque outra vez tenho que partir.

E partir dói.

Não vou inteira.

Jamais irei.

Inteira eu jamais serei depois de você.

A não ser com você.

Não importa o que pensa o mundo.

Não importa o que pensa quem desconhece e fala do meu amor.

Importa amar você e isso ninguém nunca me tirará.

Este sentimento estará comigo aonde quer que eu vá.

E nós sabemos da importância de tudo o que vivemos.

E isto, jamais será uma lacuna em nossas vidas.

Amo você, sempre.

Era domingo.

 

Acordei calada.

De joelhos dobrados e pés entrelaçados, sobre a cama me prostrei.

Lá fora o brilho do mar, sol forte e céu azul.

Cá dentro, a vontade, menos que a ausência dela, de esperar o entardecer e quem sabe assim compreender.

Evitei o espelho na ânsia de tirar da memória a imagem que guardo de mim.

Quem sabe o melhor de mim, o dia bom em mim.

Sei, sou assim e posso ser melhor embora haja quem duvide.

Só não ouso crer que já fui, diverso de hoje, melhor ontem.

E o dia passava...

Desta feita, num canto uma toalha molhada, noutro as roupas jogadas.

E eu, já sem sol, não mais transpirava.

Sentia-me inundada sem meio de dar vazão a dor e a imensidão de valores desajustados e desagregados à volta de mim.

Percebi que:

Inspirar é inerente;

Transpirar é processo;

Decantar a impaciência na vontade de dar, ser, estar e quem sabe fazer melhor, é o que permanece.

A essência é fato.

O processo, de atos é repleto.

Transmitir é vital.

E há quem ouse fundamentadamente discordar que diverso é o meio e de outra forma atinge-se o fim?

Cai a noite.

F.H. 17.11.2004

"DEMÔNIO C O L O R I D O

Seus olhos 
Ao invés de verdes 
Deveriam ser vermelhos, incandescentes, 
Na mão, ao invés de uma rosa 
Você deveria ter um tridente 
Sua voz é tão suave 
Quando deveria ser mais arrogante 
Vadiando na minha cabeça 
Não me deixa um só instante  
Mas eu vou lhe guardar 
Com a força de uma camisa 
Me despir do pavor 
Lhe chamar de amiga 
Vinte e quatro horas por dia 
Tentando meu juízo 
Foi unanimemente eleita 
Meu demônio colorido."

Obs.: Desconheço o autor, caso saiba, diga-me pelo comentário. Grata.

Todos temos nossos demônios.

Com ou sem cor, estão sempre conosco.

Dedico esta canção em verso ao meu. 

Obs2.: A autoria da letra acima deve-se a Sandra de Sá, conforme informado em comentário pela Mara S.

Sobre a cabeça os aviões
                                                   Fernanda Hanna

Não havia uma linha, poste ou papagaio, sequer vestígio de pára-raio nos fios daquela velha rua do Cajú, que assim ficou dados os fatos ali passados.
Tudo era assim:
Na infância a gente dali brincava de ser gente grande o tempo todo.
E de tão grandes, jamais se tornavam crianças.
Em vez de brinquedos e livros, passavam o tempo com ferramentas de procurar e de ganhar.
O tempo de ir à escola recheava-se com a labuta.
E nesta última procurava-se ganhar...
Ganhar a vida, vinda sem saber direito de onde.
Porque aquela é curta e passageira e porque esta é a regra pra'quelas bandas do Sem Fim.
E não há nota que ouse destoar dos tons das canções de lá.
Porque há quem zele por tudo, quem garanta que nada se perca, nem mesmo um copo d'água em dia de saraivada inconstante, mas fria e forte.
Quando cresce aquela gente, meio sem saber direito o que sente, sem memória de criança, leva como base a sua única referência de vida, e tomada pelos instintos e pequenas porções de intuição desregrada, passa então a perpetuar-se, transmitindo à prole todo o seu legado.
Ensinando, ainda, que a vida tem que ser assim, porque os costumes são assim, é modo e meio, podendo ser modelo, como não raro sói acontecer.
Mas todas as noites a gente do Cajú de Sem Fim se recolhe e se reúne à volta da fogueira, bebericando chá preto e beliscando pudins de queijos, conjeturando, tentando deduzir, intuir e, quem sabe com alguma sorte, concluir...
Concluir, talvez, que o erro é vendar os sentidos, especialmente a visão, tão essencial à
sobrevivência;
Que a ocupação ocorre quando há espaço;
Que a dominação demanda a curva, mas que isso é reversível;
Que amar é pouco mais do que se possa intuir, é ver o outro e aceitá-lo, bem ainda às situações como são, e não criar ideais absurdamente irreais, e sofrer sem suas materializações.
Finalizar, entendendo que:
Escrever pessoas é ato cênico;
Entender pessoas é ato generoso;
E viver com elas em harmonia é ato de amor.
E quando a noite se impõe sobre olhos cerrados, de corpos cansados, quando a labuta outra vez assusta, toda a gente recolhe-se, com os pés retidos nos galhos, corações em frangalhos, e isto é solidão de bando.
Aí então é hora de fechar as cortinas e repousar, porque por hoje o espetáculo findou.

São Paulo, 28.10.2004

Corrigido aos 11/11/2004, em atenção ao comentário da diligente leitora Clarice.