FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog

Encontro marcado

                                                Fernanda Hanna

Há quem diga que vinte e quatro horas não são suficientes para tudo que se tem para fazer em um dia.

Há quem diga que amor e ódio são irmãos ligados com a mesma intensidade dos gêmeos univitelinos.

Que um antecede o outro de forma diretamentamente proporcional, inclusive.

E que um não vive sem o outro.

Há quem diga que há o par ideal e há quem sequer conceba a idéia, crendo, ainda, tratar-se de figura fictícia dos grandes romances.

Integro a linhagem dos que já acreditaram na mera personagem e hoje crêem no par real.

Acredito que a vida é uma eterna estrada pela qual encontraremos muitas pessoas nas mais diversas e quem sabe controversas situações.

É certo que alguém poderá publicar um poema e este ser lido por outro alguém que entenda por bem enviar um cumprimento.

É possível que estas duas pessoas que se descobrem em lugares absolutamente distantes encontrem-se e descubram-se, ao depois, seus pares ideais.

E por tantas coincidências, gostos semelhantes e ideais comuns, rendam-se ao amor e o vivam ampla e intensamente, sem amarras e sempre com entrega.

E com a certeza de que este encontro não é acaso, reforçada pela sensação de anos de vidas unidas.

É provável que esta história seja fruto de um desses acontecimentos originais da vida.

Caso não seja, alguém deveria escrevê-la.

Porque é lírica, é poética e intensa.

E fala de amor.

E assim deveria ser, sempre.

E assim se fez perceber que o amor, que nos bate à porta com hora marcada, é real e isto o faz versátil.

Capaz de criar do momento presente condições favoráveis à própria existência, suprindo com as coincidências que encontramos no outro a memória que ainda se perfaz de vida em comum.

Porque, embora muitos não se dêem conta, o livro do conhecimento escrito pelo amor, a despeito de, ao longe aparentar páginas em branco, já vem cheio de grandes enredos

para contarmos e vivermos.

É preciso tocá-lo e conhecê-lo, página por página, com especial atenção.

Há quem diga que falar de amor é lugar comum.

Ledo engano.

Falar de amor, pude constatar, não é para qualquer um.

Talvez seja para aqueles que amam e por isso ouso essas considerações.

Bem ainda por entender que o amor é um encontro marcado.

Por toda a vida esperado por quem acredita e quer vivê-lo.

A grande tacada é não chegar atrasado.

 

S.P, 16.12.04 (ao meu amor, que foi ao nosso encontro marcado) JJ2J3J4

Onze dias

 

                                                                                      Fernanda Hanna

 

Onze dias pra te ver.

Onze dias e não vai acontecer.

Porque nos perdemos pelo caminho da impaciência, da loucura e da indecência.

Onze dias e não vou mais ter você.

Onze dias pra dizer adeus.

Porque vibramos em ondas distintas e sonhamos sonhos contrários.

Onde eu te via não era você e onde me via eu não estava lá.

Onze dias para pensar e esquecer.

Onze dias porque já se foi o meu tempo com você.

E nós não nos demos conta.

 

NO BLOG CAFÉ COM LETRAS HÁ O POEMA "O TEMPO", QUE, CONFORME A AUTORA, INSPIRADO NESTE. PORTANTO, FICA A SUGESTÃO DE VISITA.

 

São Paulo, 13.12.2004

 

Visitem: 

 

E

 

TERRA À VISTA - O IMIGRANTE É UM FORTE

Por um fio

 

                                                                                                                                                                                                                   Fernanda Hanna

 

Por um fio é a escassez de ar presente no tempo em que

se sente a pressão feroz da indócil mordaça.

Na corda bamba do equilibrista cego que dança flamenco

e samba se vê a possibilidade de que a vida é um instante

recheado de saudade de um tempo presente e distante.

A chama que queima insana.

O fogo que ardente sangra sem sombra ou vertente.

A certeza que se foi pelo ralo da intransigência presente se

faz no instante em que em n’outro (instante) tudo se perde.

Porque a fagulha lancinante presente na fogueira em que me

colocaste feriu a fundo meu olhar, extirpando-me a retina.

E levou tudo de mim.

Levou-me de mim.

Sendo certo que fiquei porque a corda bamba é minha e jamais a deixarei.

Porque a balança é tua e levarás contigo a certeza do desequilíbrio

e do imperfeito que deixaste na estória que escreveste a lápis em papel rascunho.

E o tempo...

Há de apagar.

 

São Paulo, 30.11.2004

 

A inteligência relativa

 

                                               “Lembre-se sempre: aquilo que sabemos e tudo que ainda pudermos vir a saber está fadado a ser relativo.” (Osho de A a Z, o Absoluto).

 

Por muito busquei destemperadamente a razão para viver assim.

Mente-razão em tempo integral.

Balancei na corda bamba da relatividade sem encontrar e mantive o passo.

Tentei estabelecer premissas que cingissem limites plausíveis entre o racional, o relativo, o permitido e, acima de todos, o possível.

Alguns convergem.

Outros se vão, pouco-a-pouco na mais desnuda dissipação.

A razão define.

Relativo é o todo.

E eu relatei.

E possível é tudo que for permitido, racional ou relativo.

Só não se permite o que inexiste.

Existe o que inexiste?

Não há nada que de forma relativa defina a razão por si.

O equilíbrio se atinge com dose generosa e medida de emoção inteligente e aí se encerra a inverdade do absoluto.

Vez que não há o que o seja.

Nem o absoluto o é.

Talvez haja possibilidade daquele enquanto máxima de sabê-lo relativo.

Quando a cognição aponta para tanto.

E só assim se permite.

Ao fim de tudo que degustei entendi que preciso da razão e dos sentidos acomodados na balança da relatividade, astutamente o túmulo do absoluto, epitáfio dos tempos.

Só assim é possível viver, assim.

Sem escudo assim.

Nesse mundo desnudo assim.

Porque pó ao pó torna.

E tornarei.

 

Fernanda Hanna

São Paulo, 25.11.2004. 

Desabafo

 

Não me reconheço mais ao ver minha imagem diante daquele espelho.

Não sei se ainda sou a mesma ou se mudei.

Ou se terá ido o espelho a sofrer mudanças.

Já não sei se acredito nas idéias de antes, ou se eram apenas meras conjecturas e não mais grandes ideais.

Sinto-me barrada por um muro de Berlim.

A minha liberdade de pensar, agir, ser, escrever, viver.

Quem sabe viver.

Só viver.

Manifesta-se em mim imenso desânimo e desesperança com os rumos desta vida.

Meus sonhos ora são mais sonhos do que nunca, face à ausência de perspectivas.

Ainda não é tempo de desenvolver a decisão elaborada.

E isso é bom.

Não me sentiria confortável para fazê-lo, e seria mal compreendida, como tenho sido em atos outros, sem tal importância.

Vida em comum e desapego, ato ao qual não consigo corresponder.

Não me sinto habilitada.

Respirar no cárcere já não é possível.

Talvez eu precise voar.

Talvez eu precise voltar ao mar.

Talvez seja a hora de deixar esta vida, este lugar.

Reencontrar os meus e tudo o que deixei.

O caminho que se apresenta é este.

E eu, que sempre fiz questão de me importar com a lógica, já não busco a razão porque faz dor ao coração.

Eu que nunca me importei com a forma, optei pelo simples, ora pago pela ausência de movimento, cor, cognição.

Eu, vítima de um sortilégio, já não mais aberta ao sentimento, tomo para cá o leme e a alavanca.

Hora é de conhecer outros mares e marés.

Mudar de mundos e ares.

Escrever, não importando o que pense quem vá ler.

Ser, pensar, viver com a minha visão deste mundo.

Enfim, liberta estou da paixão, momento é de deixar este chão.

Porque o pior momento de um ser é quando acompanhado pelo ser amado, desconhece-se sentindo-se miseravelmente infeliz e só.

 

Fernanda Hanna

12.11.2004

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O CÃO DA COSTA, mais que um blog, mensagens vitais.

Para quem curte boa música, no link http://fragmentados.sites.uol.com.br/nosdois.mp3 tem uma que eu adoro, uma verdadeira poesia chamada Nós Dois. Composição de Celso Adolfo, interpretada por Tadeu Franco.

 

 

Crônica da hipocrisia

 

Todos os dias passo por aquela rua estreita  do Grajaú e vejo a velha

 na janela.

Nunca a deixa.

Ela e uma xícara velha.

Sempre me questiono acerca do conteúdo.

A curiosidade me consome.

Não mais do que a de entender a velha na janela.

Sempre lhe digo o tradicional “dia!!!” e nada me responde.

Assim concluí os estudos, cresci, me fiz homem, casei e tive filhos,

os quais seguiram a mesma trilha e viram todos os dias aquela senhora e

sua xícara acostadas no para-peito daquela janela.

Toda a vizinhança curiosa indagava sobre a cena, mas ninguém ousava aproximar-se muito porque havia comentários dando conta de que era bruxa.

E só podia ser.

Tantos anos na mesma posição, explicação plausível deveria haver.

E o povo especulava.

Um dizia que ficava assim porque matou o marido de tanta ordens

Que lhe dera.

O pobre desgostou e morreu.

Outro dizia que destruíra a felicidade da filha matando o genro em um

Grande poço.

Sim, por tratar-se de um plebeu deu venenos de encantamento inverso

Ao moço que, entorpecido, não viu a fossa e ali mergulhou

Profundamente e permaneceu para sempre.

 

-->segue...                                                

Há quem diga que ainda nestes dias ouvem-se gritos no escuro, apesar

do escuro.

A neta tomou para si e logo botou em um internato só para moças, onde

Permanece, com previsão de saída aos vinte e um anos, para casar com

O neto do banqueiro.

E só com ele, porque dinheiro é bom e a tradição familiar há que ser

Mantida.

Assim, depois de tantos felizes e bons arranjos, em um dos seus

Preparativos para uma nova empreitada, desta feita tentar contra a

Empregada, com quem o velho, antes de morrer, a havia traído muitas

Vezes, inclusive com filhos, bastardos, mas filhos, um acidente provocou-lhe a cegueira.

Pó de maldade vendou-lhe os olhos para sempre, mas ressoa em sua mente até os dias de hoje, o que a faz desvairada e insana, os gritos desesperados daqueles que desgraçou.

No inferno das horas que teimam em passar tudo se ouve.

Merece, portanto, a serpente a cegueira, a janela e a velha xícara.

A primeira para que se perca.

A segunda para que a vejam perdida.

E a terceira, vazia.

 

Fernanda Hanna

São Paulo, 30.11.2004