FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog

Olhos de lince

 

                                                           Fernanda Hanna

 

Era mais uma tarde fria na cidade grande. 

Ao longe se ouvia toda a sorte de ruídos.

Um grito acolá, um rangido próximo do portão de cá, tráfego pesado e o que mais se possa imaginar.

Era tempo de isolamento, hora de refletir, acompanhar-se pelas trilhas que por vezes apresentam-se instransponíveis, ainda que não sejam.

A idéia é usar olhos de lince.

A retirada que obriga a reflexão sempre impede a precipitação.

Faz-se presente o tempo daqueles velhos pensamentos guardados.

Já quase mortos de tão sublimados.

Não ter à vista a capacidade do toque não denota a perda.

Mas esta não é a regra.

Talvez faça aflorar a perspicácia.

Demonstra convicção e sabedoria quanto ao que se quer e também acerca de sua escolha.

Lá ao longe se observa um sorriso para aquele anjo triste, aquele já referido, doravante, ainda que distante, seu próprio reflexo no espelho nos momentos de fragilidade.

Busca-se incessantemente a paz e o sonho não se apaga ao cerrar dos olhos, quiçá jamais.

Porque o sonho é aquilo de bom que, ainda que não planejado, é vivido a cada instante, mesmo que a percepção só se dê conta em outras oportunidades.

Talvez, até, em tempos distantes.

E a paz está em cada um de nós.

O ideal é encontrar o caminho para ela.

 

São Paulo, 28/4/2005.

Fala

Fala, a voz que não cala e diz: não!

A poesia não está no chão. É chegada a hora.

O tempo de contar é agora. 

Ergue-se em palavras concatenadas, em rimas de sons com ar de canções.

Traz no corpo estilos variados e aspectos, não raro, rebuscados.

Denota que poeta tem alma a mais que de poeta.

Faz clarão em noite escura. Desvairada busca motivo na rua.

Escrita, publica e volta a cantar. Contar e cantar.

Os sonetos mais solenes estampados à cor da pele.

Embalados em cetim cor de carmim. E o sangue que escorre também é vermelho.

Tal qual o batom na boca da mulher que tem no corpo tatuado um escaravelho.

E lá no estrangeiro o povo passa fome em frente à plantação queimada pelo gelo.

E isso denota o desmazelo para com as vítimas do engabelo.

Mas é certo que enquanto os olhos possam ver tudo o quanto é belo não haverá sol, laranja ou amarelo, que não se ponha sobre o país e não torne a brilhar.

E brilhar, e brilhar e brilhar. Aos que lêem, fica o apelo:

-Não se deixem enganar.

Em momento de desespero, as palavras mais suaves ditas nos momentos mais frágeis podem ser também as mais traiçoeiras.

E a todos os olhos de quem os possam proteger.

Sobre os céus deste Brasil, numa noite quente e chuvosa de outono, rumo ao norte, longe do poente. 20.4.2005.

Viver: considerações...

                                                      Fernanda Hanna

O que é a vída, o que é viver, se não os caminhos que percorremos todos os dias em busca de nossos ideais?

Somos aquilo que sonhamos e crescemos lutando por isso.                                                                   

Viver é maior que desculpar-se sempre e demanda desprendimento e determinação.                                  

As amarras que nos atrelam aos velhos e inúteis valores têm de ser revistas diuturnamente.    

Os obstáculos têm que ser transpostos com afinco, na certeza de que a vitória é alcálvel.                                

Olhar no espelho e ver o reflexo de um anjo triste diz que o ideal é não abraçar-lhe e nem afagar-lhe, mas guiá-lo nas trilhas da alegria, de mãos dadas com o auto-conhecimento.   

As nossas cem razões, assim como nossos atos sem razões emergem de nosso interior.   

Uma boa opção a encontrar-se, é observar seus pares. 

Como vivem, falam, se expressam, reagem nas mais diversas situações, corriqueiras ou não.    

É assim que se processa a limpeza d'alma, que deixa o espírito leve, forte e renovado.                                  

É assim que se torna possível olhar o próximo como o coração e compreender-lhe as faltas e fraquezas e ampará-lo.   

Um sorriso, um abraço, um simples aperto de mão aproxima pessoas, expulsa diferenças antes tidas como barreiras intransponíveis àquelas relações.                                                                                               

Importa não tardar a atentar ao que é valorável e mensurável enquanto ha vida, enquanto é possível viver.

Porque viver não é técnica, é mestria, com uma boa dose de sabedoria e um toque bem teperado de maestria.       

São Paulo, madrugada solitária, saudade imensa, intensa... tempo... vida.

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Quase...
Luiz Fernando Verissimo  

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a
desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata
trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda,
quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas
chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por
essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos
leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A
resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na
frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor
enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para
decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude
estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados
e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não
aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é
que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; para
as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,
preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de
merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores
impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma.
Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
 Não deixe
que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas
realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque,
embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu. 

Enganos

 

                        Fernanda Hanna

 

Condenada a seguir só.

Assim se viu naquela fria noite de outono, ao descobrir que o chão onde pisava não era firme o bastante para sustentar-lhe.

Em meio à verdade vieram-lhe à face a angústia, a sensação de não ter valor e a certeza infeliz da solidão.

Julgou-se incapaz, sentiu-se inerte, impotente diante dos fatos.

A pior sensação que alguém pode experimentar é a de sofrer engano.

É crer que tudo que vê é certo e descobrir-se com uma grande venda sobre os olhos.

Passar por isso levou-a a questionar-se.

Tentar encontrar os próprios erros, buscar em si motivos que a fizessem desmerecer respeito.

Amar e receber em troca a traição é fato cultural.

E por mais que se almeje, lealdade não é pra todos.

Por mais que se diga ser, nem todos são leais.

Em meio aos rápidos pensamentos compreendeu que, ainda que os fatos lhe façam desacreditar das relações, é imprescindível acreditar em si.

Porque pressões vêm e vão.

E a vida prossegue, ainda que à revelia do indivíduo.

 

São Paulo, 25.3.05. 

 

“...nós somos aquilo que fazemos quando distantes dos olhares das outras pessoas...” (autoria desconhecida)

Íntimo                       Fernanda Hanna

 

Me angustia não saber do tempo.

Ver meus pensamentos a mil rotações por minuto, dispersos, perderem-se no vento.

E não saber o momento certo de parar.

Não poder parar.

Me consome a alma não adormecer e me entregar ao repouso e não descansar.

Ao longo dos dias eu corro e luto em busca de pão.

E este nem sempre é “nosso”.

Vez por outra é vão.

Nem sempre é pão.

À luz da lua de corpo estanque, do alto da grua vejo-me só.

Sou só o pó do qual fui criada.

Na beira da praia eu corro pra água gelada do mar e minhas energias se renovam.

Mas ainda assim não é possível desatar o nó.

Que traz nas pontas lanças que já não sei onde atirar.

Percebo-me frágil e com muito medo de ousar e de errar.

E não encontrar o caminho para voltar.

Eu não sei conviver com o instável, com o incerto, talvez porque eles estejam infiltrados no mais íntimo em mim.

Talvez porque lute para expulsá-los constantemente.

Porque a sua presença me desassossega o espírito, já tão inquieto por questões outras.

Eu não sei viver assim e temo me perder em mim e não encontrar a saída.

Labirinto que sou.

Por caminhos que sem conhecer vou.

E vou, e vou...

Sem saber ao certo e em todo quem ou o que eu realmente sou e onde posso ir.

Porque só se descobre uma determinada capacidade, ainda que jamais haja dado quaisquer sinais de sua presença, quando ela efetivamente se manifesta.

Este é o grande desafio e o maior confronto da vida.

Porque a pior prisão que há para um ser é a própria mente.

 

Nesta vida torta de São Paulo, aos 03 de abril de 2005.