FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog

Vaidade

Passou pela vida:
- jovem se fez grande; conquistou sucesso, bens e poder; pessoas também.
As últimas não conseguiu manter.
Não tinha habilidade.
Mantinha-se “feliz” circulando em festas e acontecimentos sociais.
Era grande frente a seus pares.
E assim vivia sem saber-se só.
Sem saber que enquanto houver vaidade em palco, não há um caminho para a compaixão.
Porque as diferenças que deveriam servir para acrescer e crescer, só fazem destruir.
Porque a inabilidade no trato aumenta a distância.
Porque a ponte não une jamais.
E quando já não resta esperança as luzes se apagam, os sonhos se perdem.
Já não há mais vida.
A solidão, sem licença tomou para si a alegria, vertendo-a em lágrimas de constatação.
Na certeza de que não vale ter, tendo este último só feito derrotas consecutivas para o “ser”.
Sem saber amor, o amor perde o valor sem brilho, ofuscado, sucumbe para sempre em meio à imposição vaidosa de falsa liberdade, não mais do que um projeto rebuscado, de um ego inflado, da tal “felicidade”.
Passou a vida assim.
Passou a vida só, embora lhe tenham amado.
Passou pela vida assim, e assim, só, morreu.
Porque quem corre atrás do vento, termina sem nada nas mãos.

O tempo que leva

A folha que cai da árvore permanece à mercê do vento.
Mexo e remexo em meu coração enquanto sobre o papel lanço palavras com carvão.
Ando de um lado a outro.
Leio um livro, ouço uma música.
Aquela que costumava ouvir quando pensava em você.
Em sua etérea presença em mim.
Logo em mim, que não quero da vida o efêmero.
Mais, muito mais, quero futuro, presente e passado.
Quero ao partir que do meu tempo haja se formado legado.
Para ser mexido, revirado e lembrado.
Porque é certo que conforme prega a jovem poeta experimental,
Sem memória e sem lembranças que a sustentem, não se entrelaçam tempo e história.
E o presente, por si não se sustenta.
Porque a vida demanda tempo, assim desconsidera-se uma bolha de sabão
E atenta-se cautelosamente à uma gestação.
E assim, sempre há de ser, ainda que haja o ser que não apto a compreender.
Mas sempre haverá quem, capaz, escolha conceber.

Sampa, madrugada de 07.11.2005
Fernanda Hanna

 

 

As fotos já não dizem quem f(s)omos

Fernanda Hanna

Hoje, por um breve lapso, revi fotos do passado,
Tão próximo, tão distante, tão frio...passado.
Já não me reconheço, sequer pela aparência.
Já não te reconheço, não sei que és.
Te tornaste não mais do que uma face estranha, q
ue em meio à multidão certamente restaria perdida.
E eu, certamente passaria por ti, sem saber-te ali.
Tão estranha face que já não guardo na memória tuas feições.
Estranhas sensações trazidas pelos dias que contam tempos,
E levam nossa ‘fábula’ para longe de nós,
Mas, não mais que eu de ti agora, cada vez e sempre mais,
Até que as fotos se percam junto com todas as outras lembranças,
Em baú algum ou lixo qualquer, jogadas por uma empregada desatenta,
Que, por certo, não sofrerá reprimenda pelo ato.
É fato que já não sei dizer quem fui ou quem foste,
Visto que entre ontem e hoje, guarda-se, mais que a noite, distância secular.
Não me reconheço ao lado teu,
Tal qual se houvesse ficado por mais, não haveria permanecido,
Por não encontrar razões.
Questiono-me sobre como pude permitir tanta cegueira à razão?
Eis que, por mais que contigo tivesse o ‘vácuo’ do ‘tudo’,
Incandescia toda a essência do nada.
Permaneci só ao lado teu e te fiz só ao meu,
Eis que jamais poderia retribuir o que não possuía.
Vivemos, a despeito do sentimento, a solidão em seu estado mais puro.
Porque nossos olhos não viam além do que permitia a neblina da paixão,
Que arde, enlouquece, dói, entristece, rouba a paz e destrói.
Tudo, inclusive a si própria.
E parte, sem deixar vestígios ou sequer legado que se prezem.

São Paulo, 09.11.2005, madrugada insone...(5:10 hs)

A morte do amor

E eu que gravava poemas,
Os meus, os dos outros,
O que acreditasse valer a pena.
Li, gravei, senti, interpretei, dividi...
Coloquei-lhe a ouvir.
Até que um dia,
Um pássaro trouxe-me uma mensagem.
‘Apoena já não escuta, lê ou mesmo pode compreender
A poesia que provém de você’.
O dia fez-se noite,
E ela chorou,
Junto às lágrimas que dos meus olhos teimavam em rolar.
O grande pássaro negro, então, deixou-me a mensagem
E pôs-se a voar, voar...
E quão belo era o seu voar.
Mas, não mais do que lhe amar,
Nem maior do que a dor que se entranha
Em mim com a notícia da morte do meu amor.
Como o pássaro negro,
Eu queria agora dispor de asas, e partir,
E voar, voar.

São Paulo, 03.11.2005
Fernanda Hanna