FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog

As rosas que vejo também são cálidas

É próxima a virada e o vento frio, vindo não sei de onde, me assola a alma.
“...É hora da virada, é partir pro tudo ou nada...”(1).
Mas o que é tudo, e o que é nada, se olho adiante e vejo nebulosas?

O dicionário de matemática(2) me ensina a compreender fórmulas, mas elas em nada são úteis porque o momento requer reflexão, atitude e praticidade, simultaneamente.
Como não pensar nas “feridas-rosas-cálidas” do Vinícius (3), se vejo a guerra urbana prosperar, se a fome e a miséria consomem a humanidade a todo instante e o pouco que se faz é nada perto do muito que se faz preciso? Sem olvidar que, não raro, este ‘pouco’ vem da sociedade, que arregaça as mangas e vai à luta.
O “Urbenauta” (4) mapeou o território “Sampa”, mas poucos lhe deram ouvidos...
O fato é que já não sei precisar quem enlouqueceu, se foi o mundo ou se fui eu.
Ao me deparar com a ‘Veja’ de 21.12 (5), espantei-me com o argumento, tão fútil, quanto desnecessário e inútil, face ao cenário nacional e internacional que certamente demanda mais atenção da mídia, que por sua vez, como veremos algumas linhas adiante, tem seu poder de fogo (ou deveria dizer ‘força’?). Não vem ao caso, o fato é que tem.
Se não, vejamos, recentemente, em Campinas-SP, uma idosa de oitenta e poucos anos agonizava um câncer intestinal terminal atrás das grades. A grosso modo, desumano para um país que não conta com prisão perpétua em seu Cógigo Penal. Legal, segundo o dispoitivo que elenca crimes hediondos, segundo o qual, ela teria praticado delito desta natureza(6), s.m.j.
O noticiário dá conta que no sertão do nordeste a seca, velha conhecida, leva à agonia o agricultor-pecuarista de subsistência e que o Governo haveria liberado verba para investir na região.
Enquanto isto no dia 26.12, ainda com a liberação de aproximadamente “100 milhões” para pagamento de convocação extra, o Congresso teve freqüência regulamentar de operários da construção civil e turistas (cadê o Parlamentar?).
“Que país é este?” Será que há algum Renato(7) a me dizer?
É em momentos como este, cujo sono se foi, que paro e me ponho a refletir.
Às vezes, a gente não tem coragem de fechar os olhos, talvez para não sentir a dor.
Aquela que escondemos lá no fundo do coração, atrás de algum outro momento qualquer de nossas vidas e, daquela, dizemos que já não existe...
E quando é assim, a gente, em verdade, aos poucos, deixa de viver sem perceber...
Porque neste instante, em detrimento da dor alheia, cerramos os olhos do coração com o véu do individualismo, cujo poder de segregação faz do muro de Berlim algo que jamais existiu.
E que o mundo vá pra p...

São Paulo, 27.12.2005.

Referências:

1 Música “É hora da virada”, de Ana Carolina / Totonho VIlleroy / Eugenio Dale, do CD: Estampado.
2 Dicionário de Matemática, coleção Páginas Amarelas, de Luiz F. Cardoso.
3 Rosa de Hiroshima, poema de Vinícius de Moraes.
4 Expedições Urbenauta São Paulo Uma aventura radical, 2002, Ed. Univercidade, de Eduardo Emílio Fenianos.
5 Revista Veja, Edição 1936 – ano 38 – nº 51 – 21.12.2005.
6 Lei 8.072, de 25 de julho de 1990, art. 2º, inciso II.
7 Música: Que país é este, Renato Russo, Legião Urbana, do CD que leva o mesmo nome + 1978/1987.

Inexata, a solidão insensata, partiu...

                                   Fernanda Hanna

Numa folha de papel eu vejo possibilidades, caminhos e paisagens.

O papel é vegetal.

O cheiro "nada" sensual.

O texto tem ares de sentimental.

A vontade engrandece.

A saudade, enlouquece.

O desejo de um afago que se encerra no beijo teu, sustenta a ausência tua.

O pensamento livre,

Vôa alto, te busca longe,

Te traz bem pra perto de mim.

Olhos cerrados e tudo é sonho, é poesia.

Em tudo, tudo, tudo...

Estás ao lado meu,

Rica fantasia...

Provando que inexata,

A solidão insensata,

Tomada por ti, partiu...

À Alegria de viver ao lado teu,

Rendeu-se o coração meu.

São Paulo, 14.12.2005

Tecnologia da destruição

 

                                               Fernanda Hanna

 

Por onde quer que vá o Homem cria, recria, transforma.

Nutre, alimenta, destrói e mata.

Não raro, escuta-se o anúncio de nova tecnologia, capaz de atos e resultados sequer impensáveis anos antes.

A capacidade e potência criativas do Homem trouxe-nos o meio de comunicação e transmissão de dados e idéias de forma instantânea, até então jamais visto: a Internet.

Junto com as benesses vieram também os males que a vertem, não por si, mas em decorrência do mal que procede do interior do Homem, em tecnologia da destruição.

Diariamente vê-se em matérias de jornais escritos ou televisivos notícias de crimes como estelionatos e furtos, extorsões, entre outros, agora, virtuais.

Quando não se ouve falar ou sabe-se de “sites” que têm seus domínios invadidos e pichados por piratas de computador.

Até mesmo em “sites” onde o que se são poemas, crônicas e matérias voltadas para a literatura e integração de pessoas que comungam dos mesmos interesses, encontram-se os tais pichadores virtuais que, com seus atos que, ora hei por bem chamar ‘crimes de moleques’, acabam por enfiar a adaga onde sequer imaginam.

Afinal, quando alguém lê um poema, uma crônica, um conto, não raro, não se pensa no contexto que o ensejou. Não se imagina o autor em seu dia-a-dia, não há reflexão ou preocupação com quem quer que seja aquele que escreveu, ainda que um ilustre anônimo.

Ainda que não imaginada a condição, trata-se de um ‘ser humano’.

Em “parquet” mais elevado que o dos demais, claro, porque o poeta, o escritor, aquele que vislumbra com os olhos do coração o mundo e o lança em palavras aos lobos, indubitavelmente é um eterno sensível, que recebe em si intensa e contundentemente todas as dores do mundo, com muito mais sofrer do que os demais “humanos”.

E, comumente, o que se vê por aí é a escória chutando e ‘escarrando’ sobre aquilo que não tem capacidade para ser ou produzir.

Repudiadas, pois, a incapacidade e a inveja, em detrimento tão somente da vida com dignidade, com identidade, com cultura e com esperança.

Porque, enquanto atuante a tecnologia da destruição que procede do Homem, que é o que o contamina, enquanto o avanço tecnológico se dá a longos passos, ainda morre-se todos os dias mundo afora por pestilências, atos terroristas, guerras imperialistas, ‘doenças’ que, ao que parece, jamais serão erradicadas.

O que é isto, missão, condição, sinais dos tempos? (Que acabe este mundo então!).

Ou apenas a podridão do Homem escancarada em sua face?

Homem algum fará algo por si ou será meramente lobo seu?

Quem sobreviver, verá...

 

São Paulo, 05.12.2005

 

Ao som de Metallica, "Notthing else matters".

Obs.: dedicada à amiga do coração Alessandra Cezarine de Araújo

 

Elaborada e publicada para Jornal'ecos aos 10.12.2005.

O que eu não vejo

 

                                   Fernanda Hanna

 

“...Eu vejo a vida melhor no futuro...”*

 

Coisas da vida... coincidência ou mera... 25 anos da morte de John Lennon comemora-se hoje, juntamente com, no calendário do Judiciário, o dia da Justiça.

Quantos neste momento estão a refletir sobre esta junção de comemorações? Ao menos os funcionários da Justiça, não importa em que âmbito, deveriam...

Mas, questiono-me, será que efetivamente há o que se comemorar?

Se não, vejamos, claro, tudo “unt passant”, meia hora à frente da tv, do monitor ou com olhos e/ou ouvidos bem colados em qualquer meio de comunicação/informação, percebe-se que há grande dificuldade para que se faça justiça no Brasil.

Vou me ater ao país, a despeito da referência a Lennon, porque esta é a realidade manifesta.

Na tv, todos os dias ouvem-se palavras que, antes termos técnicos jurídicos, restritos aos operantes do direito, agora quase que notas musicais dissonantes, lógico, aos nossos ouvidos: “descaminho”, “contrabando”, “formação de quadrilha”, “evasão de divisas”, “tráfico”, “roubo”, “latrocínio”, “extorsão mediante seqüestro” (até ladrões são vítimas de outros...), e, agora, até atos que podem ser equiparados a terroristas, como o ônibus incendiado no Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa (para quem?).

E, como diz o bom gaúcho, “senta a pua” no povo.

No site Consultor Jurídico, o Corregedor-geral do Tribunal de Justiça paulista, Desembargador José Mário Antonio Cardinale, em entrevista para a matéria Parada dura: Justiça Federal faz concorrência com estadual, diz TJ-SP, basicamente sobre a perda de mão de obra especializada de uma para outra, refere a diferença de vencimentos, diárias e ajudas de custos: “O vale-refeição da Justiça Federal é de R$ 24, enquanto o da estadual é de R$ 5; o auxílio-saúde deles é de R$ 100 e o nosso é de R$ 50. Eles têm plano de saúde e nós, não — ou seja, o governo federal investe na Justiça, o estadual, não”. Desfrutam das mesmas condições os servidores da Justiça do Trabalho e da Eleitoral.” 

Assim, realmente não se faz justiça. Ninguém que come mais que um “dogão” com “tubaína” (compráveis com R$ 5,00) consegue trabalhar como se deve. É sabido que funcionário mal alimentado e mal pago não tem condições intelectuais, físicas e sequer morais (inclua-se aí as constantes agressões verbais a que são submetidos em balcões de cartórios por ‘aqueles’ que buscam atendimento, tema para matéria oportuna) para desempenhar suas funções.

O sucateamento da máquina e o excesso de serviço, aqui, meras referências também embasarão próximas matérias...

Passaria horas, escreveria folhas mil lembrando exemplos do que acontece por aqui. Não creio ser preciso.

Lennon morreu há 25 anos e até hoje não sei o real motivo. Talvez inveja, aquela própria da escória incapaz que, por tão incapaz opta por destruir para que a própria incapacidade não lhe seja esfregada com vidros em cacos na cara o tempo todo.

 

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O fato é que sofreu pelas mãos da violência alguém, a despeito de falhas pessoais às quais todos estamos sujeitos, portanto, não nos cabe julgar, que pregava a paz. E de lá para cá, tudo que meus olhos viram foi mais violência e menos justiça. Não posso nem dizer que “nada mudou”.

Mudou sim: a população do mundo aumentou, do Brasil, então... mais que a de coelhos. Tudo cresceu sem ordem e planejamento. Saúde, alimentação e educação são artigos de luxo, até porque ‘as cachorras’ preferem o lixo. Mudaram também os valores. Ou teriam sido mesmo extirpados e eu que tento não deixar a venda cair com medo da luz que vai me ofuscar os olhos?

Enfim, eu gostaria mesmo de ver “a vida melhor no futuro”, mas nem vestígio disto eu vejo.

Por quê?

Talvez porque os “sinais dos tempos” estejam escancarando as janelas da alma...

Talvez porque a idéia seja de que, para mudar é preciso ir ao fundo do poço  (leia-se aqui: “ao fim do mundo”) porque dizem haver lá uma mola, que acionada pelo peso do que cai, lança-lhe de volta para cima.

Será?

Daqui a 25 anos talvez eu mesma, ou alguém nos conte se algo mudou...

 

São Paulo, 08 de dezembro de 2005.

 

 

Referências e temas sugeridos:

* da obra de Lulu Santos, Tempos modernos.

* “The bonny swans”, Loreena McKennitt, do CD, “The mask and mirror” e “The Phantom of the Opera”, do CD que leva o mesmo nome, com, para aqueles que tiveram a oportunidade de ver, lembranças de cenas do belíssimo musical (que acontece todas as noites aqui há poucos metros de casa....).

Viver é insuportável

Hoje eu tô um trapo
De comida só mandei um prato
Sem banho há 2 dias
Sinto ao longe brisas frias
Não como cultura
Não faço leitura
Só vejo ao lado o Durkheim
Que me sufoca com a sugestão
Que inverna em mim a combustão
Com sua obra completa
Que a cada letra me faz sentir
Mera pateta.
Vejo do outro lado Gaarder
Que me faz mais perguntas que
Eu mesma faço sobre tudo o tempo todo
Por quê este mundo?
Por quê eu nele?
E até quando?
Por quê escrever sem crer,
Será que para jogar meu problema para quem lê?
Quanta pretensão... ou será apenas
Certeza, só a da eterna solidão.
Porque eu não sou inteligente
Nem tenho cultura,
Os livros que a têm
E eu, deles, só me meto a fazer alguma leitura.
Porque é certo que me falta intelecto.
Foi você quem disse, lembra?
Mas, como diz a boa amiga de além mar,
Ainda assim lhe tenho amplo “afecto”.
Porque lendo, escrevendo ou não,
De alguma forma estamos neste mundo vivendo,
Sabe-se lá pra quê, sabe-se lá pra quem...
Estamos todos num barco que vai afundando aos poucos
E nada fazemos para impedir
Talvez porque o processo seja exatamente este...

São Paulo, 04.12.2005