FRAGMENTOSFRAGMENTOS...FRAGMENTOS...PORQUE A VIDA NÃO PÁRA NUNCA! bBlog

Artista da vida

                                 Fernanda Hanna

"-Se pareço artista, então a vida é um palco e cada passo é um ato...".
Era o que pensava depois que alguém lhe abordou pedindo que adquirisse um exemplar de um livro, que lhe seria prontamente dedicado.
Foi o que ouviu, em meio a um seu sorriso, próprio de quem também tinha suas inquietações, mas impressas por aí pela vida, sem livros, sem vendas.
Ouviu ainda: " - você parece artista!".
Naquele instante uma gota de ácido bateu forte no estômago em meio a uma lembrança..
Ouviu tudo sorrindo, um sorriso de quem ouve, lembra, pensa e torna ao presente em instantes... Limitou-se a dizer três palavras: "-autografe!", "seu nome" e "agradeceu".
Livre, pôs-se a observar os próprios trajes eis que lembrou-se claramente de uma frase que lhe havia sido dita anos antes, bem semelhante: "-ao ver sua foto, pensei que fosse artista...".
Lembrou-se também da foto, na qual usava um jeans e uma boina...
Outra incursão ao passado e tornou-lhe à mente o que passava em sua vida naqueles tempos de boina e nada de artista.
Vivia no inferno.
Afinal, diz a música: "...o inferno é aqui...".*
Tornando ao presente, observou-se tal qual se vestem as pessoas de sua idade.
Um jeans lavado e raspado, uma "baby look" preta básica, sapatos de couro artesanal, "tatoo" semi-amostra, cabelos bem cortados, adereços sutis e interessantes, enfim, nada que faça muita diferença em meio a seus pares, para alguém que vai a um shopping almoçar num sábado de verão na Capital onde 'tudo acontece', de verdade.
Tal qual anos antes aquela boina não denotaria alguém em busca de um diagnóstico que ao depois viria como uma facada no cérebro: "-tratável, mas crônica...".
No lapso temporal entre as "vidas de artista", acabou na primeira em uma relação intensa, no sentido mais amplo que se possa dar ao termo, com quem lhe deu o primeiro ‘parecer’.
Apaixonou-se e amou. Mas, diverso do poema, não havia diante de si um espelho.
Vencidas as pseudo-impressões, ainda que se tratasse de artista permaneceria ser humano.
Partiu a paixão.
E o amor que lhe foi jurado eterno, que só existiu em palavras, foi junto eis que jamais sustentado por atos.
E palavras perdem-se por aí ao acaso, jogadas que são ao vento, até que devoradas pelo silêncio da dor.
Porque o ideal para seu par era viver um romance impetuoso, enfeitado com purpurinas, miçangas e holofotes, muitos holofotes, típico de vida de artista, porque o brilho próprio do 'amor' que não foi, se havia, era fosco.
E relações assim, não raro, são efêmeras.
E as luzes das velas coloridas e perfumadas, por elas tantas vezes cercadas, eram só luzes de velas, coloridas e perfumadas... Derretida a parafina já não era mais nada.
E o humano jamais foi visto e não importou. Porque o palhaço observado do picadeiro não é imaginado sem a maquiagem que lhe faz "histriônico".
Esta teria sido a sorte de artista se o fosse, amor e amar para si teria havido.
De si, sabe que amou, e amararia por toda a vida, como os seres humanos saudáveis, desprendidos, dispostos a amar por amar.
Lembrou-se de Closer*.
Sentiu a sensação da luz que ofusca porque próxima demais.
Por isto, tratou logo de comprar o livro e despachar quem o vendeu.
Aquele...permanece na estante, aguardando melhor oportunidade para ser conferido.
O tempo agora impõe reflexão, projeção e realização.

Sampa, 17.1.06, onde as coisas acontecem, mesmo.

Referências e observações:
• Closer perto demais, o filme.
• Da obra de Lulu Santos

• Aproveito a data de atualização deste site (escrito originalmente para o Jornal'ecos), coincidentemente a mesma em que aniversaria a cidade de São Paulo, que escolhi para viver e pela qual fui bem acolhida há alguns anos, para dedicar este conto à mesma e seus moradores que tanto trabalham para seu crescimento.

São Paulo é paixão, a não gente vive intensamente, e sem, não resiste.

Paredão

                               Fernanda Hanna

 
Artista-pintura

Paradoxo-contramão

Pixador-destruição.
O que já não pode ser
 
A ave que já não pode voar porque ferida com a queda, desaprendeu.
O leão que já não sabe caçar porque serraram-lhe as presas.
E preso, encerrado em sua condição amanhece, entardece, anoitece, permanece.
Os sonhos que já não acontecem porque as noites são insones.
As horas que insistem em não passar porque inertes os ponteiros do relógio.
Porque tombada, a ampulheta mantém-se na horizontal e ninguém se mexe, nem remexe.
É intocável.
As estrelas já não brilham como outrora porque o sol já não cumpre seu rito e lhes falta energia e luz.
O tempo, que antes era veloz, reduziu sua marcha porque já não sabe onde quer chegar, talvez nem tenha onde chegar.
As paredes tornaram-se gris porque de tristeza as cores partiram sem dizer se voltarão.
O cão solitário, esquecido no velho quintal, já não ladra porque não há quem o escute.
Neste mundo, imundo é o que caiu no mundo arrastado pela ladeira da devassidão.
Respirar profundo é dever de ofício do artista, que num majestoso ato, grita rompendo a escuridão.
O coração que não sabe amar só faz machucar, porque jamais lhe ensinaram o grande ato.
O coração que arriscou, amou e feito cristal se quebrou.
No manto vermelho foi recolhido e lá permanece até os dias de hoje para que, quem sabe um dia alguém lhe junte as partes e lhe faça inteiro e então torne a amar.
Ou ame novamente.
Neste tempo talvez, o que até então não tenha sido, passe a acontecer.

Sampa, onde as coisas acontecem, de verdade, 09.12.2006.

Os livros e os sentidos

Livros: virtuais ou reais? Tato, visão, olfato?
Já evidente o tema que ora me inspira, nem por isto, recorrente...
Há alguns ‘bons’ anos, comprar um livro era algo feito pessoalmente ou pelo correio, por meio de catálogos e reembolso postal (ainda há lugares em que esta última prática ocorre, dada a ausência de livrarias e às distâncias dos grandes centros e a concorrência imposta).
Tais modalidades permanecem, porém, com o advento da Internet, a última sofreu um adendo, um algo mais: a entrega é a mesma, com pouca variação (“courrier”(1), já a compra...
Esta se faz avaliando-se, comparando-se preços em “sites”especializados, optando-se por aquele que oferece melhores condições de preços e vantagens.
Benesses da modernidade. Frutos da tecnologia do bem.
Mas, e como fica aquela velha relação leitor-livro?
Detalhes ditos por muitos, como: cheiro, capa, tipo de papel, modo de confecção e impressão.
Enfim, aquele “afair”, aquela ligação carinhosa, quase que de cúmplice, que desperta quanto o leitor se depara com um livro em uma livraria?
Conforme meus experimentos recentes, tanto de uma, quanto de outra modalidade de compra, noto que a pessoal nem sempre se concretiza dados os preços de prateleiras sempre além e batidos pelos preços das estantes virtuais.
Certamente, porque estas últimas apresentem infra-estrutura absolutamente diversa, o que resulta em menor custo operacional.
Porém, eu não sei viver sem minhas incursões em livrarias e seus cafés e sei que não estou só.
Uma vez em uma delas, cujo café fica no “mesanino”, com vista para a praça de alimentação do shopping onde se localiza, muno-me dos títulos que me “atraem”, “tomo” a escada rolante, torcendo para que alguma das mesas coladas ao vidro esteja livre.
Acomodada, peço aquele maravilhoso “capuccino” com conhaque e uma água gelada sem gás, e passo um bom tempo analisando e avaliando os títulos escolhidos.
Ora demorando-me mais com um, ora com outro, tornando a um, a outro.
Observando o vai-e-vem lá embaixo, isenta do barulho (o vidro).
E ali conheço os livros que lerei que, sempre estão dispostos e organizados por títulos e temas e, principalmente, limpos(2).
E ali, a depender dos preços e condições, eles serão adquiridos.
Ou não...
Ou apenas apreciados e devolvidos na saída.
Afinal, avaliar não necessariamente significa ter que comprar.
Afinal, aquela mesma livraria, em sua versão virtual, sempre lança ótimas promoções aos finais de semana.
E eu, como leitora compulsiva e boa brasileira, adoro livros.
E promoções...

São Paulo, 28.12.2005

Referências:

1 Courrier: palavra de origem francesa que significa basicamente “mensageiro”.
2 Limpos: fiz questão de colocar esta referência porque aos 27.12, em uma livraria que já referi em outra publicação, tive o desprazer de sentir poeira grudar nas mãos, a cada livro que tocava. Batia as mãos a cada livro que devolvia à banca, em sinal de protesto, mas ninguém teve coragem de desculpar-se com a situação. Resta, quando assim, lavar as mãos.

Obs.: palavras de origem estrangeira sem referência assim se apresentam dado ao uso comum, o que faz crer que de “domínio” do leitor.

Quero aproveitar este fim de post para agradecer a todos que estiveram comigo no dia 02, meu amor, minha irmã, meus irmãos e pais, meus amigos e minhas amigas pessoais e literatos,  colegas de trabalho, cada qual à sua maneira, e dizer que vocês são as pessoas que realmente importam e fazem a diferença na minha vida. Por isto eu fui feliz naquele dia, pelo que cada um representou e representa e porque sei que são as pessoas que realmente se importam. Que eu possa sempre merecer a sua atenção e carinho e saber retribuir. Foi o melhor aniversário de todos os 35...rs.

Abraços fortíssimos, carinhosos e felizes.